Dia 1, quinta-feira



Acordo preocupada contigo, estás doente, com pneumonia e as melhoras não chegam. Os meninos saiem para a escola. Faço algumas coisas e envio-te a habitual mensagem, desde que estás assim. "Como estás, mamã?" Mas é o Duarte que responde por ti, com o teu telemóvel. "Estamos novamente no hospital."
Ligo e a partir daí é tudo demasiado rápido para o meu cérebro acompanhar: vai de ambulância para Coimbra, vai ser sedada, entubada. Tem uma pneumonia grave. Afectou um pulmão. É pneumonia bilateral. Vai ficar nas urgências. Vai subir para os cuidados intensivos.
E não posso dizer-te nada e não te posso ver e eu só queria ouvir mais  uma vez a tua voz.

Levo a Deus a tua vida. Peço-Lhe um milagre.

Faço as malas e arrancamos para Tondela. Os meninos vão ficar com os meus sogros e eu e o Jónatas vamos cedo para Coimbra.

Dia 2, Sexta-feira



A tia Lena telefona a dizer que estás estável e que neste momento isso é bom.
Eu e o Jónatas vamos ter com os meus irmãos a Cernache. Está lá o Duarte. Choramos abraçados quando nos encontramos. Queremos tanto que fiques bem.
Vamos almoçar e num instante, que me parece não ter fim, estou à espera no corredor dos Cuidados Intensivos para te ver.
Entro com aquela bata obrigatória, sapatos, luvas e máscara. Não te identifico logo, estou meio perdida.
Chego até ti, chamo-te muitas vezes... As mães respondem sempre, não é? Não conseguiste, eu sei. Não faz mal. Apertei a tua mão, estava fria, acho que tinhas febre. Disse que te amo e que estamos a orar.

O médico fala connosco. Diz que é grave, que há grande risco e eu não acredito neste pesadelo.

Eu, o Jónatas, os meus irmãos e o Duarte passamos a tarde juntos.
Rimos, choramos, mostramos medo, esperança, tudo num ciclo repetitivo.

Às 19:30 entram o Miguel, o Tiago e o David para te verem. O David pede ao enfermeiro para o Duarte entrar também. Eu também peço. Ele deixa. Eu já não consegui. Já tinham chegado ao fim os 30 minutos a que temos direito.
30 minutos, duas vezes por dia, duas pessoas, uma de cada vez...




Sempre que vamos juntas a algum lado dizem que tenho uma mãe muito bonita e que mais parecemos irmãs.
Sempre quis ser bonita como tu.


Consolo

"Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que O temem, sobre os que esperam na Sua misericórdia."

 Salmos 33:18.
A enfermeira pediu-me um shampoo e um amaciador. Quiseram lavar-te o cabelo e lavaram, mas querem que fique ainda mais bonito e bem penteado.

Vamos tratar disso, não te preocupes.
Ao sair do hospital encontramos o Pastor Marcos, a Lilian e o Mateus. Um pouco depois a Débora e a mãe, a irmã Cidália.

Tiro uma foto aos homens, porque juntos parecem estar numa competição de barbas bonitas, umas ruivas, outras muito escuras, outras a ficarem branquinhos.

Registo tudo porque quero que leias tudo, mamã.

Os sorrisos são de alívio pelas boas notícias que tivemos.
Os corações apertados tiveram uma folga.

Um pouco de alívio



Deus tem-me concedido da Sua paz, uma forma tão doce da Sua misericórdia para connosco. É senti-lo muito perto e isso é maravilhoso. Consigo chorar e sentir desespero e, ao mesmo tempo, sou invadida pela sua paz.

14:30, eu e o Duarte estamos prontos a entrar para te ver. Ele é sempre o primeiro, está sempre ansioso por te ver. Incansável e cheio de vontade de te ter de volta. Quando ele sai diz-me para eu ir rápido que estás com os olhos abertos.
Chego ao pé de ti e chamo-te. Abres os olhos, eles procuram-me, mas não os consegues controlar estão perdidos. Dou-te a mão e digo que estou ali. Apertas a minha mão e tens força para a levantar. Sinto que ficas mais agitada e não gosto de te ver assim, mas dizem-me que é bom.
Tenho de sair e só choro depois disso.

15:10- Entramos no gabinete para falarmos com o médico. Diz-nos que estás um bocadinho melhor e a responder à medicação. Que se não surgirem contratempos é muito bom.
Dou logo graças a Deus e continua a ter Nele a minha confiança.

Cá fora com os meus irmãos, o Jónatas e o Duarte, alegramo-nos, choramos, falamos de medos, de anseios e desejos.





De vez em quando tenho um ataque de choro. Ao pé de ti tenho-me portado sempre bem.

Amo-te muito.

Dia 3, sábado

A noite passada foi muito difícil para todos nós. Estive sempre a acordar sobressaltada. Vi a manhã a chegar. Estava muito nervosa e pedi ao Jónatas para ligar para o hospital. Disseram que estava tudo na mesma e que não podiam adiantar nada.

Faço um esforço para sorrir e estar minimamente bem ao pé dos meninos.


Fomos ao Parque Verde buscar a Rute e as meninas.

Estava muito frio, mas um dia bonito.




19:30
Entra o Duarte, depois o Tiago.
Estás a dormir tranquilamente.
Arrisco e entro também, estou quase a chegar ao pé de ti e a enfermeira não me deixa continuar. Peço muito, digo que é só um beijinho, mas ela não deixa. Tenho de respeitar.

Vi-te ao longe, mamã. Foi por pouco que não te dei um beijinho de boa noite.



Dia 4, Domingo

Estamos a caminho da Igreja de Coimbra. Fazemos o caminho ao som de Stênio Marcius.

"Tapeceiro
Grande artista
Vai fazendo o seu trabalho
Incansável, paciente
No seu tear
Tapeceiro
Não se engana
Sabe o fim desde o começo
Trança voltas, mil desvios
Sem perder o fio
Minha vida é obra de tapeçaria
É tecida de cores alegres e vivas
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso
Nem imagina o desfecho
No fim das contas
Tudo se explica
Tudo se encaixa
Tudo coopera pro meu bem
Quando se vê pelo lado certo
Muda-se logo a expressão do rosto
Obra de arte pra honra e glória
Do Tapeceiro. "

Netos

Sei que os teus netos estão preocupados, cada um à sua maneira.

O Gabriel diz-me que vai ficar tudo bem e já me limpou as lágrimas duas vezes.

O Samuel diz-me piadas, quer desviar a minha atenção.

A Raquel fica muito calada, às vezes até parece chateada. Falo com ela e pergunto se tem medo, ela diz que sim e chora muito. Tem saudades tuas. Fez uma prenda para o Duarte com o Gabriel e escreveu-te um bilhete.



Assistimos todos ao culto em Coimbra.
Todos.
A igreja orou por ti, mamã. Foi a irmã Eunice que nos conduziu em oração. Vais ficar feliz de saber que foi ela.

Fomos almoçar juntos. O David arranjou o restaurante para podermos comer mais descansados e ainda ajudou a servir!

Temos pensado todos nestas questões de estarmos mais tempo juntos. Deixamos que o tempo tome conta de nós. A tia Vany disse que vamos todos voltar ao Paço da Vila quando saíres do hospital.

O avô almoçou connosco, mas ele ainda não sabe de tudo. Estamos a poupar um bocadinho o seu coração.




14:30, entra a tia Vany para te ver. A enfermeira acorda-te, abres os olhos e a tia fala contigo. Deixas cair uma lágrima.

Sou a segunda a entrar, estás acordada. Digo-te que estou ali e que tenho estado todos os dias. Acenas com a cabeça. Digo-te ainda que esta pneumonia "apanhou-te", voltas a acenar e fazes um olhar de quem diz: "não te disse, filha!" E é verdade, estavas mesmo preocupada quando te diagnosticaram o início da pneumonia. O que não sabias é que tiveste Gripe A e foi ela que fez com que essa pneumonia galopasse desta maneira.

Só podemos entrar dois, mas o Duarte ainda tenta e consegue. Dou graças a Deus por isso, porque ele hoje está muito em baixo, muito nervoso. Está a sofrer muito.

15:15, falamos com o médico. Diz que o quadro ainda é reservado, que os pulmões têm lesões graves.

Tinha esperança que nos dissesse que estavas a melhorar. Anseio ouvir que houve uma grande melhoria.

Saímos e à minha mente vem que vai acontecer o que Deus quiser e que Ele é Quem sabe. Já experimentei um milagre na vida da Raquel e peço-Lhe outro.

Hoje é domingo, a Raquel e o Samuel amanhã têm escola, já faltaram na sexta.
Não sei se regresso a Lisboa, se fico em Coimbra com o Gabriel e o Jónatas leva os mais velhos para Lisboa. Ouço alguns conselhos, todos cheios de amor e muito preocupados comigo.

Penso no que é que tu me dirias. Acho que dirias para eu ir para Lisboa, orientar os meninos, fazer a minha rotina, manter-me a par de todas as novidades e regressar a Coimbra assim que haja algum desenvolvimento. Depois dizes-me se pensei bem.
19:30, entra o Duarte e de seguida o tio Nana. Veio hoje de Lisboa. Consegue falar com a enfermeira que lhe diz que estás a melhorar. A enfermeira chama-te e o tio fala contigo.

Eu já não tinha direito a entrar, mas o Duarte explica que vou para Lisboa e a enfermeira autoriza a minha entrada. Tento passar a minha vez para um dos meus irmãos, mas eles insistem para ser eu, eles amanhã vão ver-te e eu tenho de regressar.

Entro e dou-te muitos beijinhos, acordas com eles. Digo que te amo muito.

Vou voltar rápido, mamã.



Os teus filhos não podem entrar os quatro ao mesmo tempo como desejariam, mas temos estado sempre os quatro no hospital à hora da visita. Entre quem entrar. Os que não entram esperam, queremos ver a expressão de quem sai de ao pé de ti. Queremos saber logo notícias.



Estou em casa, mamã, mas sei que neste momento alguém está ao pé de ti.

O David enviou-me esta foto. 


E o Tiago esta. 


Hoje as notícias foram chegando logo pela manhã e acalmaram um bocadinho o nosso coração. Estás estável, a melhorar, mas ainda inspiras muitos cuidados. Este "mas" dá sempre um bocadinho cabo de mim. Todos os que te acompanham na medicina intensiva dizem que temos de ter calma, que é muito demorado...

A espera é uma coisa tão difícil quanto necessária e Deus deseja que esperemos Nele, só Nele. Agradeço-Lhe por me ir acalmando o coração.

O Miguel teve de voltar ao trabalho. Estava triste e sem vontade de ir quando falei com ele hoje ao telefone. Custa muito ter de fazer a rotina, quando a rotina que desejávamos agora era poder ver-te, mesmo que sejam só uns minutinhos.


Estamos sempre em contacto uns com os outros. Passamos notícias, novidades, tudo o que vamos sabendo sobre ti, mamã.


Foto do Miguel

Dia 6, terça-feira

O dia por aqui amanheceu cinzento, mas acho que por aí o céu está mais bonito. O David enviou-me esta foto:


Estão muitas pessoas a orar por ti, mamã.
Tenho amigas queridas que para além da oração fazem-me chegar mimos como estes:




Ao arrumar o quarto dos rapazes, encontro isto do teu neto Samuel para ti:



15:20

As notícias do médico de serviço chegam sempre por esta hora.
Estás estável e a melhorar aos bocadinho, inspiras cuidados.

Sei que alguns "colegas de quarto" que também estavam "adormecidos" começam a acordar. Ansiamos por esse momento, mamã. Como ansiamos!


O Duarte foi ver-te, como sempre, e diz que estavas rosadinha. Esta espera está a ser tão difícil para ele. 

Dia 7, quarta-feira

Ontem à noite ficámos todos um bocadinho preocupados. O Duarte, o David e o Tiago foram ver-te. Quase não reagiste. Tinhas as mãos frias e os teus rapazes não gostaram nada disso. O David até te chamou "Fortuna" na esperança de uma reacção...

Foto do David

A minha inquietação durante a manhã era grande. Queria saber mais. O Tiago liga-me também inquieto e no grupo que temos no WhatsApp chovem mensagens a perguntar por notícias. 

Tu sabes que temos a tia Lena aí no hospital e, como em todas as situações, ela tem sido incansável e muito amorosa connosco. Sempre que tem uma notícia informa-nos logo. Às 11:00 ela ainda não tinha enviado a habitual mensagem (eu sabia que era porque ela ainda não tinha novidades, mas não consegui esperar), ligo-lhe e não atende. 
5 minutos depois está a ligar-me. Tinha acabado de falar com o médico. 

Apresentas melhorias significativas, estão a diminuir a quantidade de oxigénio que estás a receber, já não precisas de tanto. Eu suspiro de alívio, todos suspiramos de alívio! Damos graças a Deus! 

Quero tanto poder ouvir a tua voz, mamã. 



Às 14:30 o Duarte e o Tiago vão ver-te. Não abres os olhos, mas deixas cair uma lágrima quando ouves o Duarte.

O médico fala das tuas melhoras significativas, ainda que fale sempre no risco que ainda corres. Vão tentar começar a reduzir a sedação para ver como é que o teu corpo reage.

Tens muitas pessoas a orarem por ti. Recebo mensagens muito queridas de amigas e amigos.


Dia 8, quinta-feira

Faz hoje uma semana que este pesadelo começou, mamã.
É um momento duro o que todos vivemos, principalmente tu.

A tia Lena enviou mensagem logo pela manhã, o médico foi ter com ela pessoalmente para dizer que estás a melhorar, muito devagarinho, mas a melhorar. Temos de dar graças ao Senhor da vida! Temos de lhe pedir força para continuarmos!

Na visita da tarde e depois de falar com o médico, o Duarte liga-me animado. Estavas de olhos abertos e foste reagindo. Ele está ansioso por te ver como és, por ouvir a tua voz e ver-te sem esses tubos todos. Estamos todos.


Esta foi a foto do meu amanhecer. 

Oração

Hoje o Jónatas dizia no WhatsApp para a família que muitas pessoas estão a orar por ti e já não é só em Portugal. Oram por ti no Brasil, nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Alemanha. Sabemos que a oração tem poder e todos temos sentido as orações em ti e em nós próprios.

Em mim, peço que Ele me ajude a saber ter paciência nesta tribulação.


20:30

O David liga-me. Foi ver-te e está com muitos sentimentos ao mesmo tempo. Sabes como ele é. Gosta de conseguir resolver, de fazer alguma coisa, ficar parado e ver-te assim é duro para ele. O que ele queria era trocar de lugar contigo. Tem um coração muito bom, o meu irmão pequenino.

Não sei, mas talvez seja Deus a relembrá-lo (e a todos nós) que o que podemos fazer de mais importante, é, muitas vezes, o nosso último recurso. A oração! É o que de mais importante podemos fazer por ti, é o que muda tudo!

Deixou de falar por momentos comigo ao telefone porque estava a chorar. Chorou porque te viu acordada, porque por momentos viu a tua garra, viu expressões que conhece em ti, sentiu a tua mão a apertar a dele, sentiu o teu cabelo e a tua pele. Ele estava a precisar destes mimos. Estamos todos, mas estou feliz por ele ter estado assim contigo.


Até amanhã, mamã!

Amanhã vou ver-te e mal posso esperar.
Tenho comboio logo cedo.

Até amanhã, mamã!


Dia 10, sábado

Ontem o dia foi cheio, mamã.

Recebemos esta mensagem da tia Lena: "As novidades são muito boas 😊 O raio-X  está muito melhor, as análises também e vão até tirar-lhe a sedação para começar a respirar por ela e ver com reage. Deus é bom!"

Ficámos felizes, animados e muito agradecidos a Deus.

Às 14:30 fomos ver-te. Eu, o Duarte e o Tiago.

Estavas mais acordada e consciente, embora a médica diga que podes não te recordar de nada posteriormente.

Ficaste emocionada quando nos viste. Expliquei-te ao ouvido o que aconteceu. Já respondes sim ou não com a cabeça. Apertaste-me a mão com muita força. Orei por ti ao teu ouvido. Quando disse que ia orar fechaste os olhos e no fim da oração vi a tua língua a dizer Amém.
Queria ficar ali de mão dada contigo.
Disse que te amo muito e que tinha de sair para o Tiago entrar. Levantaste um bocadinho a mão (que estão presas para não arrancares os fios) para me fazeres um miminhos na cara.



Dia 11, domingo

Ontem à noite as notícias foram maravilhosas.
Já não tens o tubo, não estás ventilada, já falas baixinho e estás bem disposta.

Rendemos graças ao nosso bom Deus! Deus é bom, em todo o tempo. Ouviu as nossas angústias e medos, atendeu às nossas orações!

Estou ansiosa por ouvir a tua voz!

Tenho o Gabriel doentinho e por isso não estou aí, mas logo, logo, vou estar contigo.


Dia 12, Segunda-feira

Tempo de agradecer!
Deus ouviu o nosso choro e clamor, trouxe alívio e alegria aos nossos corações. Rendemos-Lhe louvor pela sua graça e misericórdia nas nossas vidas e pela Sua forma perfeita de agir.

Estás a recuperar muito bem, mamã, estás fora de perigo e aguardas vaga numa enfermaria para continuares o tratamento.

É tempo de Lhe agradecer!